AS IDEIAS DO CHICO E A ROTA DO CONSLHO NACIONAL DOS SERINGUEIROS (in Portuguese)
Posted: 01-Jun-1999; Updated: 28-May-2009
Atanagildo de Deus Matos "Gatão"
Os seringueiros da Amazônia continuamos na luta iniciada por Chico Mendes. As suas idéias que surgiram em Xapuri -- Acre, hoje fazem parte de todas as populações extrativistas dos diferentes estados da Amazônia. A luta iniciada pelos seringueiros e hoje também a luta das quebradeiras de côco-babaçu, dos coletores de castanhas, de açaí, de pupunha. Hoje o Conselho Nacional dos Seringueiros e na prática o Conselho Nacional das Populações Extrativistas da Amazônia.
Continuamos na luta de Wilson Pinheiro, Chico Mendes, Arnaldo Ferreira, e tantos outros companheiros que caíram assassinados por aqueles que pensam que matando um indivíduo se pode matar uma idéia. Sabemos que outros caíram, mas temos absoluta certeza que muitos outros tomaram seu lugar. Os companheiros que caem na luta são simplesmente os que vão ficando no caminho.
Para nos os objetivos de nossa luta são simples . Lutamos pelo direito a terra, ao trabalho, a saúde e educação, a manter nossas florestas em pé porque delas dependemos para viver.
Por isso nos custa tanto entender porque os que tem o poder político e econômico, os que podem e devem dar soluções, vivem no circuito de seminários, workshop, missão vá, missão vem. Os projetos e investimentos ecologicos para Amazônia aumentam, mas da mesma forma aumenta o desmatamento e a miseria dos povos da floresta.
Não tem sido fácil difundir as idéias de Chico. Concientizar que no caso da Amazônia homem e natureza são uma coisa só, que não há possibilidades reais de manter a gigantesca floresta Amazônica a não ser com as populações que tradicionalmente nela habitam. Entender que a floresta amazônica poderá ser conservada com parques, santuários, guardas florestais, helicópteros, e simplesmente não conhecer nossa realidade, e muitas vez pior do que isso, e conhecer e não entender .
Esta vida de harmonia homem / natureza é o que nos une e com nossos companheiros indígenas - é o que entendemos por aliança dos povos da floresta, as vezes forte, as vezes débil, pois tanto as condições reais dos irmãos indígenas como as nossas, tem sido muito ruins. Praticamente continuamos lutando com a cara e a coragem.
Assim, por não estar enquadrados no entendimento dos teóricos da conservação, nem na visão que se tem da luta e organização dos trabalhadores, não tem sido fácil encontrar aliados. Mas também não foi impossível. Hoje temos poucos e fies parceiros nesta luta.
Outro problema é que não conseguimos fazer entender a burocracia das organizações multilaterais que a clave da conservação da Amazônia passa por apoiar as organizações e movimentos sociais que dependem da floresta para viver. Os presidentes e diretores aparentemente entendem ou pelo menos apoiam estas idéias nos discursos, mais na prática a burocracia continua sem entender.
Por outra parte se comparamos as Políticas Publicas Nacionais com as Políticas dos Organismos Multilaterais, as contradições são dramáticas, pois já não são somente ideológicas, pelo contrario são concretas, se traduzem em fatos, em leis, em investimentos, em obras, em projetos, que no nosso entender são contraditórios, se anulam entre sim. Hoje esta situação se traduz em que ao mesmo tempo que o G7, o Banco Mundial, a Comunidade Européia, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a KFW, entre outros, tem uma serie de projetos com investimentos consideráveis direcionados a proteção e conservação da floresta amazônica, temos por outro lado uma política do governo que abriu as portas a concorrência internacional, sem nenhum tipo de proteção aos produtos básicos do extrativismo na Amazônia Assim , produtos estratégicos do extrativismo como a borracha nativa coletada no meio da floresta por seringueiros, devem competir no mercado internacional com borracha de cultivo subsidiada da ásia. Todo isto para dar melhores condições de concorrência as industrias multinacionais de pneus sediadas no Brasil, o oligopólio formado pela Pirelli, Firestone, Good Year, Michelin. Ou seja os miseráveis do interior Amazônia que lutam para sobreviver e manter suas florestas em pé, devem entrar a competir num mercado globalizado para permitir melhores condições de concorrência internacional as multinacionais dos pneus.
O anterior tem significado que nunca a produção da borracha nativa foi tão baixa e nunca o nível de vida dos seringueiros foi tão ruim.
É difícil entender porque nos, os mais miseráveis, temos que competir neste mercado globalizado, quando ao mesmo tempo as populações agrícolas dos países mas desenvolvidos tem proteção. Porque nos temos que sair da meio da selva a concorrer num mercado internacional com países asiáticos que subsidiam sua produção. Como explicar aos nossos companheiros que o Japão subsidia seu arroz, que Portugal cuida e subsidia da produção do aceite de oliva. No Brasil nos temos que mostrar a tecnocracia nacional e internacional que o extrativismo da Amazônia e economicamente viável em condições de mercado aberto e que temos capacidade para sair de uma economia primitiva para competir no mercado internacional.
Por outra parte se anuncia no dia da arvore a criação de novas Reservas Extrativistas por parte da Presidência, com publicações nas revistas de maior circulação no pais , e depois burocratas de quinto ou sexto escalão simplesmente paralisam os projetos e nada acontece. Temos uma espécie de anarquia ecológica institucionalizada a nível de Governo Federal que sempre funciona contra os interesses dos trabalhadores extrativistas da Amazônia.
Alguns autoridades alegam que nao temos propostas, ou que buscamos so assistencialismo. Temos propostas, tal vez simples de mais para ser entendidas pelos doutores do eixo Brasilia -- Washington - Bruxelas - Bonn.
Reivndicamos incentivo direto para a borracha nativo, ainda hoje noss produto básico. Com aquilo que DNER gasta por ano para fazer manutencão de 100 km. de rodovia na Amazônia podemos manter os seringueiros que ainda resistem na floresta e fazer retornar os que deveram forcadamente emigrar para Bolívia Isto comparado com todos os discursos e projetos que nos chegam aos nossos ouvidos é simplesmente nada.
Do ponto de vista da conservação das florestas e acesso as terras para as populações extrativistas, lutamos pela Reforma Agraria Ecológica que objetiva até 2002 demarcar 10% da Amazônia em Reservas extrativistas, que são áreas de uso coletivo, ecologicamente sustentável para as populações tradicionais que vivem e trabalham no seio da floresta. Isto nos permitiria proteger 50 milhões de hectares de floresta, legalizando o uso da terra e gerando melhores condições de vida para dezenas de milhares de familias.
Os valores involvidos são ínfimos se sonhamos com uma proposta no sentido que os credores perdoem 5% dos pagamentos da divida externa de nosso pais para ser dedicados a projetos de conservação das florestas no Brasil, para ser gerenciados por um consorcio entre ONGs dos países que perdoam a divida, os movimentos sociais e ONGs nacionais e o nosso governo federal. Isto e muito pedir ? E sonhar demais com a solidariedade internacional?
E atentar contra os sistema econômico vigente no mundo?
A verdade e que ate agora os grandes projetos, os grandes investimentos tem sido absolutamente contraditórios com a política econômica , ou a falta de política econômica- para viabilizar a permanência das populações extrativistas da Amazônia. Assim, por uma parte se fazem investimentos de infra-estrutura que somente aceleram o desmatamento e por outra parte se expulsam as populações na medida que não se dão as condições mínimas para que elas continuem na floresta, entendendo por condições mínimas uma atividade econômica que viabilize para o trabalhador extrativista no mínimo 100 dólares por mês , e que tenham acesso a saúde e a educação.
Em honor a verdade devemos registrar que quando os seringueiros se mobilizaram em marco de 97 e colocaram estes mesmos pleitos ao Presidente da Republica, este nos atendeu e encaminhou soluções, mas apesar do esforço do Programa Comunidade Solidária ate hoje pouco ou nada aconteceu, porque -- e aqui o ponto mais difícil para nos entender - é que ainda no nosso pais a burocracia esta acima das decisões políticas.
Diante de todo este quadro de contradições, tal vez o melhor resumo da situação sejam as palavras de uma comadre minha que vive num seringal em Xapuri no interior de Acre,
"é mole ou quer mais"

